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24/04/2023Falar após cirurgia por câncer de língua
O câncer de boca apesar de ser uma doença muito associada ao consumo de álcool e o hábito de fumar, está cada vez mais presente em nossa sociedade, com um aumento maior em adultos de até 40 anos, o que não era comum há 20 anos. Chegando a representar 14% de todos os cânceres em cabeça e pescoço. Destes, cerca de 30-35% já chegam ao médico com diagnóstico de doença avançada. Porém isso não representa a impossibilidade de tratamento. Pelo contrário, nos casos de doença avançada, a cirurgia tem um importante papel. (Fonte: Mannelli G, Arcuri F, Agostini T, Innocenti M, Raffaini M, Spinelli G. Classification of tongue cancer resection and treatment algorithm. J Surg Oncol. 2018 Apr;117(5):1092-1099. doi: 10.1002/jso.24991. Epub 2018 Feb 12. PMID: 29432642.)
A língua é uma das estruturas da boca mais comumente acometida por tumores malignos nesta região. Na cirurgia, há necessidade de retirada do tumor com margem de segurança oncológica de 1 cm, ou seja, além do tumor mais 1cm de todas as medidas (inclusive profundidade) deve ser removida, diminuindo assim as chances de a doença voltar e tornando melhor avaliável a necessidade ou não de quimio e radioterapia após o tratamento cirúrgico. Neste cenário existem várias cirurgias parciais de língua. A escolha depende da localização do tumor e sua profundidade como mostram as figuras a seguir onde o desenho em azul é a região a ser removida em diferentes tipos de tumores:


Fonte: Ansarin M, Bruschini R, Navach V, Giugliano G, Calabrese L, Chiesa F, Medina JE, Kowalski LP, Shah JP. Classification of GLOSSECTOMIES: Proposal for tongue cancer resections. Head Neck. 2019 Mar;41(3):821-827. doi: 10.1002/hed.25466. Epub 2019 Jan 2. PMID: 30600861; PMCID: PMC6590454.
Com a retirada de parte da língua, muitos expressam durante as consultas o medo de ficarem sem falar:
“Doutor, eu irei falar após cirurgia por câncer de língua?"
E a resposta a este questionamento é sim, continuará falando. Isso porque o órgão responsável por produzir a voz é a laringe (garganta) e não a língua. A língua auxilia-nos na moldagem das palavras, inclusive para articular sílabas (ou fonemas) palatais, ou seja, toda a palavra que necessita que a língua encosta no céu da boca, um exemplo são as palavras “telha, ovelha, ganho, nhoque”.
Então nunca mais vou poder pedir um nhoque no restaurante? Calma, após remoção de parte da língua existem inúmeras técnicas de reconstrução dela que são conhecidas extensamente por um cirurgião experiente. Bem como a parceria com um fonoaudiólogo para treinamento pré e pós cirúrgico ajuda muito.
E no caso das cirurgias em que se remove totalmente a língua (também conhecida como glossectomia total)?
“Como irei falar sem língua?”
Calma, mesmo com a remoção total da língua é possível falar. Lembre que a voz não vem da língua, mas sim da caixinha da voz chamada laringe que fica no pescoço. Quando se remove a língua em sua totalidade, é necessária uma reconstrução mais complexa e a “nova língua” que fazemos durante a cirurgia não vibra como normalmente fazemos, portanto, vai ser necessária uma reabilitação com a fonoaudiologia mais séria e específica. Existem ainda algumas próteses que rebaixam o céu da boca tornando as palavras e fonemas palatais mais facilmente expressados pelo paciente.

Fonte: Ansarin M, Bruschini R, Navach V, Giugliano G, Calabrese L, Chiesa F, Medina JE, Kowalski LP, Shah JP. Classification of GLOSSECTOMIES: Proposal for tongue cancer resections. Head Neck. 2019 Mar;41(3):821-827. doi: 10.1002/hed.25466. Epub 2019 Jan 2. PMID: 30600861; PMCID: PMC6590454.
Lembre sempre de fazer todas as perguntas e tirar dúvidas que você tem com o seu médico. Não esqueça também de cobrar dele uma indicação de um fonoterapeuta antes da cirurgia para você já ir começando a treinar. E pense positivo, apesar do câncer ser uma doença chata de tratar, o tratamento é muito seguro e eficiente.
Boa sorte e bom tratamento.




