
Reposição hormonal de levotiroxina em gestantes
27/09/2024
Estou grávida e descobri um câncer de tireoide, o que fazer?
27/09/2024Para que serve o exame de pet scan?
O exame de pet scan foi muito comentado em meados de 2005 no Brasil como “O exame que poderia detectar qualquer tipo de câncer”. Foi difundida uma ideia de que este exame poderia ser feito em qualquer pessoa e assim saber se tinha ou não câncer. Mas isso não é correto de se afirmar.
Desde 2001 o Pet scan ou tomografia com emissão de pósitrons foi colocado em uso em alguns países para realizar a identificação de áreas com maior suspeita para metástase. Ou seja, a principal indicação é a identificação se há doença em atividade fora do tumor principal, como forma de ajudar a história clínica e exames de imagem como tomografia, ultrassom e ressonância.
Mas como funciona este exame?
De uma forma simplificada, o Pet scan é uma tomografia especial em que utilizamos uma substância radioativa na veia do paciente. Essa substância é misturada com glicose que é absorvida pelas células do corpo, principalmente para aquelas células que apresentam alto metabolismo.

Fonte: Rong, J., Haider, A., Jeppesen, T.E. et al. Radiochemistry for positron emission tomography. Nat Commun 14, 3257 (2023). https://doi.org/10.1038/s41467-023-36377-4
Dessa forma, as células neoplásicas, que se apresentem com alto metabolismo de glicose dentro delas, aparecem com uma marcação diferente e se mostram com uma “cor” diferente ao exame de imagem. O médico irá avaliar qual o grau de metabolismo dessas células e irá julgar o resultado estar ou não associado a câncer.
Não pense que por conta disso todo paciente tem indicação de realizar para saber se tem ou não câncer. Este exame é feito para situações em que temos dúvidas quanto à natureza da lesão.

Linfoma identificado em tomografia e com alta captação de radiomarcador em Pet-CT
Fonte: Cronin CG, Swords R, Truong MT, Viswanathan C, Rohren E, Giles FJ, O'Dwyer M, Bruzzi JF. Clinical utility of PET/CT in lymphoma. AJR Am J Roentgenol. 2010 Jan;194(1):W91-W103. doi: 10.2214/AJR.09.2637. PMID: 20028897.
Pense comigo, que células normais do corpo apresentam alto consumo de glicose? Os neurônios, os rins, o fígado, alguns músculos (como o músculo do coração), as células do corpo que passam por algum processo de inflamação ou infecção, alguma área do corpo que foi recentemente traumatizada com medicações, cirurgias ou agulhas.
Portanto, não devemos achar que tudo que irá “brilhar” no pet-scan é câncer.
A indicação do exame deve ser feita de forma muito categórica. Pois um exame mal solicitado, pode mostrar resultados chamados falsos positivos, ou seja, achar que um órgão tem câncer e na verdade não tem.
O exame de pet scan é um exame com alta capacidade de valor preditivo negativo, ou seja, de mostrar se um resultado de se um órgão não é cancer.
Um exemplo que podemos dar é o seguinte:
1º exemplo:
Imagine um paciente de 21 anos com múltiplos nódulos no corpo que apareceram nas últimas 2 semanas na forma de gânglios. Foram feitas tomografias do abdome e tórax e muitos dos nódulos tem suspeita de serem malignos. O acesso para realizar uma biópsia é muito complexo e necessita de cirurgia muito invasiva. Qual melhor nódulo biopsiar, o do tórax, o do abdome?
Neste caso, temos um exemplo em que o médico oncologista irá pedir diversos exames para avaliar se o paciente apresenta alguma infecção como HIV, tuberculose, toxoplasmose, entretanto, ficará o diagnóstico de câncer como um dos principais. Poderá ser feito um pet scan para identificar qual dos gânglios é o que apresenta maior chance de ser um tumor maligno, e a partir disso, pedir uma biópsia melhor orientada. Seja ela com agulha com uma tomografia, seja cirúrgica.
É claro que neste caso não é sempre que iremos precisar de um pet scan, mas é comum acontecer isso.
2º Exemplo:
Um segundo caso que posso citar é o de um paciente de 56 anos que fez o tratamento para um câncer de garganta (orofaringe) há uns meses. Realizou radioterapia e quimioterapia sem dificuldades, apresentando o desaparecimento do tumor na garganta depois do tratamento. Entretanto um dos gânglios do pescoço não sumiram totalmente, reduziu, porém não sumiu.
O seu médico cirurgião de cabeça e pescoço fez diversos exames como laringoscopia, tomografias, entretanto após 12 semanas de fim do tratamento ainda está lá o gânglio. Então ele pede um pet scan e este mostra que aquele gânglio não apresenta anormalidade no metabolismo da glicose marcada. Ou seja, existe uma baixa probabilidade desse gânglio ser câncer. Provavelmente é uma cicatriz da radioterapia.
3º Exemplo:
Um terceiro caso muito emblemático que atendo corriqueiramente é de pacientes que fizeram um pet scan solicitado de forma desnecessária. Imagine uma paciente de 30 anos que apresentou várias dores nas “juntas”. Articulações do pescoço, mãos e pés. Fez diversos exames e não achou a causa. O médico solicitou um pet scan para afastar que não seja um câncer.
O pet scan dessa paciente jovem mostrou de diversas articulações da mão e pescoço estão com alto metabolismo de glicose.
Quando coletei a história, notei que a paciente apresenta essas dores já há uns meses. Apresenta também exames de fator reumatoide positivo e história. Noto que apresenta rigidez nas articulações logo pela manhã, não consegue nem sair da cama direito.
As articulações das mãos estão com leve deformidade como um pescoço de cisne, peço proteína c reativa e exame de velocidade de hemossedimentação no sangue e anticorpos anti-CCP que se mostram positivos.
Estou de frente com um diagnóstico possível de artrite reumatoide. A conduta é encaminhar para o reumatologista para iniciar tratamento com medicações.
Vejam bem que são três exemplos bem distintos e com resultados de pet scan que me conduziram a realizar tratamentos diferentes. No primeiro caso poupei o paciente de uma cirurgia de biópsia e guiamos o radiologista a biopsiar um gânglio mais acessível com uma agulha. No segundo caso notamos que o pet scan confundiu o diagnóstico que é clínico, evitamos que a paciente operasse o pescoço de forma desnecessária e no terceiro diferenciamos um câncer na coluna e encaminhamos para o tratamento com medicação.
Em particular no terceiro exame, houve um equívoco na solicitação do pet scan. O exame foi indicado de forma desnecessária. O exame confundiu mais do nos ajudou.
São casos de exemplo, porém não é sempre assim que acontece. Cada caso é individual, deve ser tratado de forma particular, o médico deve julgar a solicitação do exame de acordo com protocolos médicos e trabalhos científicos.
Não realize exames de forma desnecessária. Procure um especialista na área para lhe ajudar. Caso o seu médico fale que não é necessário o exame, lhe pergunte o porquê, peça para explicar. Caso tenha dúvidas, procure um especialista.




