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15/06/2023Drogas alvo e o câncer de tireoide
O câncer de tireoide costuma ser de evolução lenta e com baixa chance de metástase na maioria dos casos. Porém existem algumas formas do tumor que evoluem de forma agressiva, crescendo aceleradamente. A principal forma é o carcinoma anaplásico de tireoide, carcinoma papilífero de tireoide iodoresistênte e sua variante folicular metastática.
De crescimento rápido e descontrolado, o carcinoma anaplásico de tireoide tem baixa resposta aos tratamentos habituais. É descoberto em sua maioria em estágio avançado, com alto volume de doença na região do pescoço, gânglios aumentados na região lateral do pescoço bem como metástases a distância.
A cirurgia é realizada em casos específicos quando a retirada total de doença é possível. Enquanto que a iodoterapia não costuma ser boa arma a ser usada nesses casos. A radioterapia é usada principalmente para fins de melhora de sintomas locais e para evitar sangramentos.
Nos últimos 10 anos surgiram estudos com resultados satisfatórios de tratamento e controle de doenças utilizando-se de algumas drogas inibidoras de fatores de crescimento tumoral.
Estas medicações são diversas e são chamadas de terapia alvo, ou seja, não é um tipo de quimioterapia, mas sim uma medicação que é usada para bloquear a cadeia de crescimento do tumor. Algumas delas com a função inibir “fator de crescimento de endotélio vascular”, isso quer dizer que ele age bloqueando a formação de células que irão construir os novos vasos que trazem sangue para as células tumorais em crescimento desorganizado.
Este ciclo de formação de novas veias e artérias do tumor é chamado “angiogênese”. É um dos principais motivos que faz os tumores crescerem. Ao receber vasos, novo suprimento de sangue chega ao tumor e as células podem ir para outros órgãos, gerando as chamadas metástases.

Fonte: Folkman J. Angiogenesis: an organizing principle for drug discovery? Nat Rev Drug Discov. 2007 Apr;6(4):273-86. doi: 10.1038/nrd2115. PMID: 17396134. (adaptação para português).
Esse processo de formação de novos vasos começou a ser estudado ainda em 1980 porém somente teve aplicação oncológica adequada no início dos anos 2000. O câncer de fígado (hepatocarcinoma) se beneficia há anos de medicações dessa categoria. Os cânceres na região de cabeça e pescoço, como o câncer de tireoide, começaram a ser tratados com medicações dessa classe por volta de 2014.

FONTE Gild ML, Tsang VHM, Clifton-Bligh RJ, Robinson BG. Multikinase inhibitors in thyroid cancer: timing of targeted therapy. Nat Rev Endocrinol. 2021 Apr;17(4):225-234. doi: 10.1038/s41574-020-00465-y. Epub 2021 Feb 18. PMID: 33603220. (adaptado)
Iniciou-se em junho de 2020 a discussão de inclusão de algumas destas medicações medicação no “rol da ANS - Agência nacional de saúde suplementar” para cobertura do mesmo pelos seguros e planos de saúde no Brasil. No último dia 21 de março de 2023 a ANS lançou documento com dados para discussão da obrigatoriedade de custeio da medicação pelas seguradoras de saúde.
A discussão ainda tem muitos capítulos pela frente, haja vista que estas medicações tem custo altíssimo no mundo inteiro, chegando a cerca de R$24 mil o ciclo por paciente somente com medicação. O que impactaria em cerca de R$3,3 milhões no primeiro ano é de aproximadamente R$78 milhões até 2027 a ser custeado pelas operadoras de saúde, que já estão passando por aumento dos custos operacionais desde a pandemia de covid.
Este custo de medicação ocorre por diversas causas. Entre elas: é tarifada em dólar, é de alto custo de fabricação e comercialização pela indústria farmacêutica e com a patente em vigor.
Apesar do benefício comprovado de ganho em sobrevida global (tempo que o paciente irá viver) e sobrevida livre de progressão (tempo em que a doença fica estacionada), ainda há necessidade de mais estudos sobre o impacto na qualidade de vida nestes pacientes.
Nas últimas semanas a mídia tem difundido notícias sobre esta medicação e de ser uma esperança para os pacientes e médicos que tratam desse tipo de doença, vale a pena sempre discutir paciente a paciente de forma técnica e humana. Pois existem indicações específicas de uso, como qualquer outro tratamento adotado em câncer. Protocolos específicos que devem ser seguidos para sucesso da terapêutica.
Discuta com seu médico oncologista, cirurgião oncológico e cirurgião de cabeça e pescoço sobre as alternativas de tratamento para doença que está passando você, algum familiar ou amigo. Cuidado com opiniões extremas que visam a lucratividade de algumas partes, informe-se, converse com especialistas e com pacientes que estão passando pelo mesmo problema que você.
Bibiliografia:
1- Schlumberger M, Tahara M, Wirth LJ, Robinson B, Brose MS, Elisei R, Habra MA, Newbold K, Shah MH, Hoff AO, Gianoukakis AG, Kiyota N, Taylor MH, Kim SB, Krzyzanowska MK, Dutcus CE, de las Heras B, Zhu J, Sherman SI. N Engl J Med. 2015 Feb 12;372(7):621-30. doi: 10.1056/NEJMoa1406470. PMID: 25671254.
2- Dierks C, Seufert J, Aumann K, Ruf J, Klein C, Kiefer S, Rassner M, Boerries M, Zielke A, la Rosee P, Meyer PT, Kroiss M, Weißenberger C, Schumacher T, Metzger P, Weiss H, Smaxwil C, Laubner K, Duyster J, von Bubnoff N, Miething C, Thomusch O. Thyroid. 2021 Jul;31(7):1076-1085. doi: 10.1089/thy.2020.0322. Epub 2021 Apr 15. PMID: 33509020; PMCID: PMC8290324.
3- Takahashi S, Kiyota N, Tahara M. Cancers Head Neck. 2017 Oct 24;2:7. doi: 10.1186/s41199-017-0026-0. PMID: 31093354; PMCID: PMC6460646.
4- Gild ML, Tsang VHM, Clifton-Bligh RJ, Robinson BG. Multikinase inhibitors in thyroid cancer: timing of targeted therapy. Nat Rev Endocrinol. 2021 Apr;17(4):225-234. doi: 10.1038/s41574-020-00465-y. Epub 2021 Feb 18. PMID: 33603220.




