
Existe câncer benigno? Entenda as diferenças entre os tumores.
04/12/2023
Pré operatório de cirurgia oncológica
08/01/2024Feridas na boca, o que podem significar?
É muito comum na rotina do médico que cuida de câncer do trato aerodigestivo superior receber pacientes com relato de feridas na boca. Mas o que pode significar feridas na boca? Feridas na boca sempre são câncer? Feridas na boca podem ser sinal de algo grave? Todas essas perguntas e outras serão respondidas no decorrer deste artigo.
A boca é a entrada de nosso organismo para o alimento, porém também é o caminho pelo qual o ar, umidade, poeira, odores, bactérias, vírus e fungos entram em nosso corpo. Ou seja, a boca é uma porta de entrada.
Desde a primeira infância nosso corpo descobre o meio externo com ajuda da boca. Sentimos os primeiros gostos, texturas e temperaturas ainda nos primeiros meses de vida. E a partir desta idade é que iniciamos o processo de desenvolvimento de defesas imunológicas contra agentes nocivos para nossa saúde.
Muito tememos quando adultos que nossas crianças entrem em contato com bactérias e vírus, mas isso é inevitável. Nosso corpo precisa entrar em contato com esses diversos agentes físicos, químicos e biológicos para iniciar o processo de formação de um sistema imune que irá garantir que não tenhamos doenças com tanta frequência na idade adulta.
Feridas na boca e infecções:
Sim, feridas na boca podem estar relacionadas a infecções. Elas podem aparecer de forma aguda, sem relação alguma com machucados que tenhamos sofrido, costumam ser dolorosas, avermelhadas ou até mesmo no formato de bolhas e com saída de secreção. Existem casos em que estão relacionadas a outros sinais de infecção como periodontite, cáries, acúmulo de tártaro e gengivite.
Na maioria das vezes essas feridas na boca estão por dentro e não no lábio, acometendo as gengivas, línguas e céu da boca. Podendo melhorar de forma espontânea e sem tratamento como no caso das aftas. Entretanto, algumas podem demorar a melhorar. Vale a pena lembrar que em caso de se manterem por mais de 2 semanas, um médico deve ser consultado.

Fonte: Borgnakke WS, Genco RJ, Eke PI, et al. Oral Health and Diabetes. In: Cowie CC, Casagrande SS, Menke A, et al., editors. Diabetes in America. 3rd edition. Bethesda (MD): National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (US); 2018 Aug. FIGURE 31.1, Periodontal Health, Gingivitis, and Periodontitis. Available from:
Feridas na boca e Diabetes:
Sim, a diabetes causa feridas na boca.
A diabetes é uma doença crônica e afeta uma grande parte da nossa população. Na boca, causa processo de desregulação dos mecanismos de regulação de fatores inflamatórios.
Quando associada a obesidade ou sobrepeso, a diabetes pode intensificar o processo de aumento de fatores inflamatórios de forma progressiva e constante que levam a feridas na boca e muitas das vezes infecções de repetição.
Existe uma relação direta de perda de dentição e diabetes. Para você ter uma noção, alguns estudos mostram que quem tem pré-diabetes ou diabetes têm maior chance de não chegar na velhice com a dentição completa.

Fonte: Borgnakke WS, Genco RJ, Eke PI, et al. Oral Health and Diabetes. In: Cowie CC, Casagrande SS, Menke A, et al., editors. Diabetes in America. 3rd edition. Bethesda (MD): National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (US); 2018 Aug. FIGURE 31.1, Periodontal Health, Gingivitis, and Periodontitis. Available from:
Portanto, se você tem níveis altos de açúcar no sangue ou toma alguma medicação para baixar as taxas de açúcar no sangue, não esqueça de procurar um dentista uma a duas vezes ao ano para fazer a prevenção.
Efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia na boca
Quando realizamos algum tratamento para câncer usando radio ou quimioterapia, ou até mesmo as das juntas, fazemos um desarranjo na flora bacteriana de nossa boca. Até mesmo quando o tratamento não tem como alvo a boca.
Por exemplo, estou tratando um câncer de mama e meu médico oncologista indicou um tratamento com quimioterapia pela veia associado a algumas sessões de radioterapia. No meio do tratamento posso desenvolver algumas feridas avermelhadas ou até mesmo aftas na forma de úlceras ou escavações na gengiva e língua que devem ser o mais breve possível tratadas.
Por esse motivo toda consulta de um paciente em tratamento deve ser questionado sobre a saúde bucal e feito exame do interior da cavidade oral e dos lábios.
Estes tratamentos proporcionam um aumento de fatores inflamatórios e quebra do equilíbrio da flora da boca, tornando assim a boca mais propensa a produzir feridas e estas por sua vez geram infecções.
Estas feridas durante o tratamento de radio e quimioterapia são chamadas de mucosites. Se dividem em graus. A mucosite grau 1 podem ocorrer áreas avermelhadas na língua, lábio, gengivas e céu da boca, com ou sem dor local. Na grau 2 já existem úlceras avermelhadas e esbranquiçadas. Grau 3 costuma ser mais grave, o paciente tem úlceras que atrapalham a alimentação devido à dor. A mucosite grau 4 é a mais grave de todas, em que ocorrem diversas úlceras e feridas que impedem totalmente ingerir alimento, inclusive líquidos.
Como estes efeitos são toxicidade do tratamento, indicam-se no grau 3 e 4 a interrupção do tratamento por alguns dias para adequado tratamento das feridas e início de alternativas de vias de alimentação como sondas e suplementações alimentares.

Fonte: Maria OM, Eliopoulos N, Muanza T. Radiation-Induced Oral Mucositis. Front Oncol. 2017 May 22;7:89. doi: 10.3389/fonc.2017.00089. PMID: 28589080; PMCID: PMC5439125.
Feridas na boca podem ser câncer?
Sim, feridas na boca que não cicatrizam após 2 semanas e que se localizam no lábio ou dentro da boca não devem ser negligenciadas pois podem estar associadas à células malignas.
Para você ter idéia de como este assunto é importante, cerca de 90% dos casos de câncer de boca que recebo em consultório são encaminhados pelo dentista. O paciente costuma ter uma ferida que muita das vezes não causa dor ou sangramento, porém está lá há mais de 2 semanas, às vezes meses e ele nem percebe direito ou só doi quando se alimenta ou escova o dente.
Existem cânceres agressivos que causam feridas na língua, gengivas e lábios e começam bem pequenos demorando meses para dar metástases ou causarem alguma dificuldade na vida do paciente.
Estes tumores estão muito relacionados ao hábito de fumar e ingerir bebida alcoólica. Entretanto, existem pessoas que podem desenvolver estes tumores e nunca ter fumado ou bebido na vida.
Auto-exame bucal
Uma forma muito eficiente de identificarmos se existem feridas na boca é realizando o autoexame bucal.
Uma vez a cada 2 semanas, na hora que você for escovar os dentes, procure:
1º Lábios: Olhar no espelho todo o lábio externo fazendo bico e olhando toda a área do vermelhão do lábio. Com ajuda de sua mão, faça a inversão do lábio e olhe a parte de dentro do vermelhão até as gengivas superiores e inferiores, olhando se existem feridas, vermelhidões e áreas esbranquiçadas que não saem quando coça.
2º Gengivas e bochechas: Com ajuda do espelho, olhe toda a gengiva superior e inferior e faça a palpação com dedos para ver se existem áreas dolorosas ou dentes amolecidos ou com feridas na sua base. Com ajuda de 2 dedos, empurre sua bochecha para o lado e procure feridas ou aftas até o final do gengiva lá atrás da boca com as gengivas fechadas e os dentes superiores tocando os inferiores, assim você poderá notar também se existem algumas áreas diferentes na mucosa jugal (bochechas).
3º Céu da boca: Agora com a boca aberta, olhe e faça a palpação com a ponta do dedo na parte dura do céu da boca a procura de estufamentos ou aftas. Muitos dos tumores de céu da boca podem ser submucosos, ou seja, não produzir aftas mas sim abaulamentos como lombadas nesta área.
4º Língua: A área mais sensível da boca é a língua e também é a área que mais comumente achamos tumores. Para avaliar a língua, você deverá olhar toda a parte de cima e passar a escova de dente ou a ponta do dedo comprimindo contra a língua a procura de áreas dolorosas e com aftas. Lateralmente também é importante olhar da sua ponta até a porção mais posterior próxima ao dente do siso (3º molar) . Por último, veja a parte do assoalho (ou chão) da boca, esta é a parte mais difícil, mas não pode passar despercebido, você toca o céu da boca com a língua e procura feridas, estufamentos e áreas vermelhas ou brancas na parte da debaixo da língua (“barriga da língua”) e no freio da língua. Lá você vai perceber 2 buraquinhos que são por onde sai a saliva das glândulas submandibulares, é importante tocar também.
5º Pescoço: Faça a palpação do pescoço levemente dos 2 lados e na região embaixo do queixo. Muitos dos tumores malignos de boca aparecem pequenos na boca porém com gânglios aumentados no pescoço. Portanto, palpar o pescoço faz parte.

Fonte: https://www.aliem.com/smiler-101/oralexam/#
Fazendo isso, você estará prevenindo o câncer de boca de forma fácil e segura. Mas é claro que deverá passar no dentista pelo menos 1-2 vezes ao ano para um exame de rotina. Em caso de feridas que não sumam em 2-3 semanas, procure um médico especialista para ele examinar de forma mais específica.




