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23/08/2023Tumores malignos, estágios do câncer e cirurgia em cordas vocais
A rouquidão é um sinal de mau funcionamento do nosso órgão da voz, a Laringe. Em casos de inflamação, infecção e até mesmo o uso inadequado da voz pode gerar rouquidão transitória, melhorando em sua maioria de 7 a 14 dias. Porém quando ocorre persistência dos sintomas após este período, um cirurgião de cabeça e pescoço deve ser procurado.
1- Como funcionam as cordas vocais:
O órgão laringe é parecido com uma caixinha e fica localizado no pescoço acima da traquéia e abaixo da faringe (garganta), ele é responsável por nossa capacidade de promover a descida da comida sem entrar no pulmão e de uma forma secundária de emitir sons.
É composto por múltiplas estruturas musculares, cartilaginosas, mucosas e ligamentares. A mais conhecida são as cordas ou pregas vocais, porém engana-se quem acha que são apenas as pregas vocais que proporcionam a formação do som. As demais estruturas da laringe, a faringe, a língua e os lábios nos auxiliam a moldar este som e emitir o que para você é sua voz normal. Já deve ter ocorrido com você ter uma afta na boca ou uma inflamação de amígdala ou até mesmo o nariz entupido e ficar com a voz diferente.
As cordas vocais auxiliam na abertura e fechamento, bem como na vibração delas durante o movimento de entrada de ar para os pulmões e saída para o meio ambiente. Esta vibração ocorre dezenas a centenas de vezes por segundo.
2- Tumores em cordas vocais:
Existem dezenas de alterações benignas da laringe, desde inflamações devido a infecções por vírus e bactérias, quanto inchaços, pois usou-se muito a voz para gritar, cantar ou dar palestras. Porém o que mais preocupa são tumores de natureza maligna, o chamado câncer em cordas vocais.
O Câncer em cordas vocais ocorre principalmente em pacientes com idade acima de 50 anos, com hábito de fumar e ingerir bebida alcoólica, porém pode ser encontrado em pessoas que nunca usaram estas substâncias.
A rouquidão é o principal sintoma, porém pode estar também associado a dificuldade para engolir ou respirar em casos mais avançados. Caso o paciente apresente uma rouquidão que não melhora após 7 - 14 dias um médico deve ser procurado para realizar o exame de laringoscopia ou nasofibroscopia e assim diagnosticar a causa.
3- Diagnóstico:
O diagnóstico ocorre a partir de uma consulta com investigação detalhada dos sintomas, além do exame físico direcionado para o aparelho da voz.
A laringoscopia é um exame feito com anestesia local ainda no consultório pelo médico especialista, usando de uma câmera adaptada em um aparelho especial chamado laringoscópio rígido e uma fonte de luz, ele consegue examinar a laringe e suas estruturas com o paciente respirando, engolindo e falando.

4- Tumores malignos e seus estágios:
Os tumores malignos em cordas vocais não começam com lesões e feridas grandes, mas sim com pequenas feridas ou nodulações que alteram bem pouco a movimentação das cordas vocais, proporcionando uma pequena alteração na voz do paciente que não melhora após tratamento clínico.
O estágio I dos tumores malignos de cordas vocais está limitado às cordas vocais. Dividimos em estágio Ia (quando está em apenas uma corda vocal mantendo a movimentação normal ao exame) e Ib quando em o câncer invade ambas as cordas vocais sem alteração motora delas.

Tumor em uma única prega vocal (T1a)

Tumor em ambas prega vocal (T1b)
Fonte:Mannelli G, Comini LV, Santoro R, Bettiol A, Vannacci A, Desideri I, Bonomo P, Piazza C. T1 Glottic Cancer: Does Anterior Commissure Involvement Worsen Prognosis? Cancers (Basel). 2020 Jun 6;12(6):1485. doi: 10.3390/cancers12061485. PMID: 32517265; PMCID: PMC7352716.
O estágio II ocorre quando o tumor já compromete a movimentação das cordas vocais. Ou seja, está somente nas cordas vocais e o paciente já desenvolveu uma paralisia da prega vocal ou de ambas, independente do tamanho do câncer
O estágio III é mais avançado. O câncer começou nas cordas vocais, porém invadiu a região lateral à elas chegando nas proximidades da cartilagem laríngea ou prolonga-se para as estruturas superiores ou inferiores do órgão. Nestes casos, é necessária uma tomografia para confirmar que é verdadeiramente um estágio III e não um estágio II.
O estágio IV é diagnosticado com auxílio de tomografia para evidenciar que o tumor esteja invadindo a cartilagem laríngea. O médico irá também avaliar os gânglios linfáticos cervicais a procura de algum que esteja aumentado sugerindo metástase.
É importante pedir tomografia de tórax na suspeita de estágio III e IV a fim de detectar alguma metástase pulmonar.
É de grande valor o médico cirurgião de cabeça e pescoço saber diagnosticar de forma correta o estágio da doença, pois caso seja feito de forma equivocada, poderá mudar totalmente o tratamento do paciente levando em alguns casos a riscos à vida do paciente e diminuição de chance de tratamento correto do câncer.
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Estadiamento do tumor primário UICC 8ª ed |
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Tumores glóticos |
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T1a |
O tumor limita-se a 1 prega vocal com mobilidade normal. |
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T1b |
O tumor invade ambas as pregas vocais com mobilidade normal. |
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T2 |
Tumor estende-se para supraglote e/ou subglote e/ou ocorre alteração da mobilidade. |
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T3 |
O tumor está limitado à laringe, com fixação das pregas vocais e/ou ocorre a invasão do espaço paraglótico e/ou do córtex superficial da cartilagem laríngea. |
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T4a |
O tumor invade o córtex profundo da cartilagem laríngea, e/ou outras estruturas como pele, traqueia, base da língua, tireoide e esôfago. |
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T4b |
O tumor invade a região anterior da coluna (pré-vertebral), carótida ou estruturas do mediastino. |
5- Tratamento cirúrgico minimamente invasivo em câncer de cordas vocais:
Apesar dos tumores malignos serem agressivos, quando ocorrem nas cordas vocais e estão em estágios iniciais como T1, T2 e alguns T3, podemos usar de técnicas cirúrgicas menos invasivas para remoção total do tumor de forma oncológica adequada e segura.
Para isso utilizamos de cirurgias com auxílio de um microscópio, e de aparelhos de vídeos associados a pinças longas e delicadas para manipular a laringe. Chamamos de cirurgia microscópica de laringe.
Hoje unido com a tecnologia de lasers de diodo ou CO2, o médico experiente consegue retirar tumores maiores com segurança oncológica e funcional, portanto o tumor é removido com uma margem de segurança adequada e preservando a função do órgão e na maioria das vezes não sendo necessária a complementação de tratamento com radioterapia e quimioterapia.

Fonte: Chiesa-Estomba CM, González-García JA, Larruscain E, Calvo-Henríquez C, Mayo-Yáñez M, Sistiaga-Suarez JA. CO2 Transoral Laser Microsurgery in Benign, Premalignant and Malignant (Tis, T1, T2) Lesion of the Glottis. A Literature Review. Medicines (Basel). 2019 Jul 22;6(3):77. doi: 10.3390/medicines6030077. PMID: 31336581; PMCID: PMC6789531.
O paciente retorna às suas atividades de vida diária em sua maioria de 7 à 14 dias após o procedimento.
O acompanhamento com o cirurgião e com o serviço de fonoaudiologia promoverá o controle adequado do câncer.




