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02/08/2023Tiroidite de Hashimoto
Tireoidite de Hashimoto é uma inflamação crônica da glândula tireoide ocasionado pelo organismo do próprio paciente, ou seja, é uma doença autoimune. Assim como ocorre com lúpus, artrite reumatoide e doença de Crohn, o organismo (por motivos ainda desconhecidos pela ciência) começa a produzir anticorpos contra as células do próprio corpo localizadas na tireoide, causando danos pequenos nesta glândula e gerando perda progressiva de seu funcionamento.
1- Mecanismo da doença:
Quando falamos de funcionamento da tireoide, é importante ressaltarmos que a tireoide produz hormônio tireoidiano que todos nós precisamos para sobreviver às atividades de vida diárias e para nosso desenvolvimento quando estamos em fase de crescimento. Os hormônios da tireoide são chamados de diiodotironina (T2) e monoiodotironina (T1) que quando ligam-se entre si formam o tão conhecido T4 (presentes nas medicações) e o T3.

Fonte: Kahaly GJ, Gottwald-Hostalek U. Use of levothyroxine in the management of hypothyroidism: A historical perspective. Front Endocrinol (Lausanne). 2022 Nov 2;13:1054983. doi: 10.3389/fendo.2022.1054983. PMID: 36407302; PMCID: PMC9666762.
A inflamação crônica causada pelo Hashimoto leva à uma queda bem lenta e gradual desses hormônios no sangue. Isso ocorre em um processo silencioso. Os pacientes costumam demorar anos para começar a sentir algum sintoma.
2- Sintomas:
O hashimoto não costuma ter sintomas, porém a queda do hormônio sim e são frequentemente relacionados ao hipotireoidismo, quer dizer: falta de hormônio tireoidiano suficiente na corrente sanguínea.
Entre os principais sintomas do hipotireoidismo temos: Fadiga, queda de cabelo, ganho de peso, sonolência durante o dia, desinteresse pelas atividades do dia dia, indisposição crônica, aumento da fome. São sintomas bem inespecíficos. Muitas outras doenças levam a estes sintomas. Por isso deve-se procurar um médico para avaliação caso estejam presentes em sua vida. O especialista irá lhe examinar, procurar sinais clínicos de hipotireoidismo e solicitar exames complementares para fechar o diagnóstico.

3- Tenho hashimoto, meus parentes podem ter também?
Apesar da medicina não conseguir identificar uma causa para o Hashimoto, alguns estudos levantam a ideia de que existe sim uma relação familiar para esta patologia. Sugere-se inclusive que existe uma chance de 20-30% de desenvolvimento de doença autoimune de transferência familiar quando ocorrem casos na família de Hashimoto. Alguns genes já foram associados a maior risco de desenvolvimento da forma familiar, porém ainda temos pouco conhecimento no assunto para prevenir. (Fonte: Ragusa F, Fallahi P, Elia G, Gonnella D, Paparo SR, Giusti C, Churilov LP, Ferrari SM, Antonelli A. Hashimotos' thyroiditis: Epidemiology, pathogenesis, clinic and therapy. Best Pract Res Clin Endocrinol Metab. 2019 Dec;33(6):101367. doi: 10.1016/j.beem.2019.101367. Epub 2019 Nov 26. PMID: 31812326).

4- Relação hashimoto e surgimento de nódulos na tireoide:
A tireoidite de Hashimoto pode aumentar a chance do paciente desenvolver tumores e nódulos de tireoide com maior frequência do que um paciente sem Hashimoto. Isso ocorre porque a inflamação crônica da tireoide leva a um processo de dano e cicatrização repetitivos na glândula, virando um ciclo vicioso de machucar e reparar a tireoide, podendo ocasionar a formação de células com aspecto diferentes na arquitetura da glândula.
Existem inúmeros estudos científicos mostrando esta relação. Por este motivo, os médicos que tratam esta doença costumam solicitar exame de ultrassonografia de tireoide para avaliação da evolução da patologia bem como avaliar se houve formação de nódulos de tireoide.
Caso ocorram o surgimento dos nódulos, estes devem ser avaliados individualmente pelo médico, categorizados e caso sejam suspeitos para malignidade, irá proceder com a punção. (Fonte: Silva de Morais N, Stuart J, Guan H, Wang Z, Cibas ES, Frates MC, Benson CB, Cho NL, Nehs MA, Alexander CA, Marqusee E, Kim MI, Lorch JH, Barletta JA, Angell TE, Alexander EK. The Impact of Hashimoto Thyroiditis on Thyroid Nodule Cytology and Risk of Thyroid Cancer. J Endocr Soc. 2019 Mar 5;3(4):791-800. doi: 10.1210/js.2018-00427. PMID: 30963137; PMCID: PMC6446886).
5- Como diagnosticar a tireoidite de Hashimoto
Apenas ter os sintomas listados acima não fecha o diagnóstico de hashimoto. É necessária uma avaliação profunda levando em consideração o paciente, sua história pessoal, suas atividades de vida diária, história familiar, doenças prévias, medicações que faz uso, sinais clínicos e exames complementares. Esse tipo de avaliação não costuma ser fácil.
Dar um diagnóstico é como solucionar um problema investigativo policial, o médico precisa estar de olho em pequenos sinais e sintomas que o paciente apresenta para poder suspeitar. Não adianta apenas pedir exames e esperar que eles nos digam o que o paciente tem.
Alguns exames complementares simples de sangue ajudam-nos a concluir o diagnóstico após uma suspeita clínica. Entre eles temos a aferição dos anticorpos que agem contra a tireoide, o hormônio tireoestimulante (TSH), o T4 livre, T4 total e T3 o Anticorpo antiperoxidase (ATPO) e Anticorpo antitireoglobulina (ACTG).
Todos nós que temos tireoide produzimos estas substâncias diariamente, porém no paciente com hashimoto pode ocorrer no avançar da doença que suas dosagens mudem. Com o passar dos anos, aumenta-se os índices de anticorpos, diminuem as taxas de T4 e T3 e por conseguinte aumenta-se o TSH.
Ou seja, apenas ter os exames alterados não fecham o diagnóstico, são necessários vários fatores para concluirmos que o paciente tem a doença. (Fonte: Hu F, Yan Z, Ma B, Jiang Y, Huang H. The impact of concurrent Hashimoto thyroiditis on thyroid nodule cytopathology assessed by ultrasound-guided fine-needle aspiration cytology. Postgrad Med. 2020 Aug;132(6):506-511. doi: 10.1080/00325481.2020.1739462. Epub 2020 Mar 12. PMID: 32133896).
6- Tireoidite de Hashimoto tem cura?
Não. Muito pesquisa-se sobre a cura desta patologia, porém poucos resultados de sucesso foram obtidos. Tentou-se usar corticoides e medicações para tentar quebrar os anticorpos em excesso (como feito em casos de artrite reumatoide e lúpus), alguns usavam maiores taxas de iodo via oral, outros uso de selenium, porém nenhum desses estudos mostraram desfecho satisfatórios.
Por hora, vale acompanhar de perto o paciente diagnosticado para que não venha a ter sintomas de hipotireoidismo sem tratamento adequado. (Fonte: Giammanco M, Giammanco MM. Selenium: A Cure for Autoimmune Thyroiditis. Endocr Metab Immune Disord Drug Targets. 2021;21(8):1377-1378. doi: 10.2174/1871530320666201014150147. PMID: 33059572).
7- Tenho lupus e/ou artrite reumatoide, tenho maior chance de ter Hashimoto?
Sim. Infelizmente ter uma doença autoimune, seja ela lúpus, artrite reumatoide ou doença inflamatória intestinal (Crhon e retocolite ulcerativa) ou diabetes tipo I (que desenvolve na adolecência), aumentam e muito a chance de ter outra doença com este mecanismo de auto agressão do corpo por anticorpos. (Fonte: Inokuchi T, Moriwaki Y, Takahashi S, Tsutsumi Z, KA T, Yamamoto T. Autoimmune thyroid disease (Graves' disease and hashimoto's thyroiditis) in two patients with Crohn's disease: case reports and literature review. Intern Med. 2005 Apr;44(4):303-6. doi: 10.2169/internalmedicine.44.303. PMID: 15897640).

Fonte: Milo T, Korem Kohanim Y, Toledano Y, Alon U. Autoimmune thyroid diseases as a cost of physiological autoimmune surveillance. Trends Immunol. 2023 May;44(5):365-371. doi: 10.1016/j.it.2023.03.007. Epub 2023 Apr 13. PMID: 37061365.
8- Tenho Hashimoto há anos, o que fazer?
Caso você saiba que tem a doença, deve manter acompanhamento com um médico, isso pois sabemos que em algum momento suas taxas hormonais irão cair e você precisará de complementação hormonal.
A medicação que usamos para tratar a queda de função da tireoide é algo muito tranquilo de fazer na maioria das pessoas. Usa-se o hormônio T4 sintético vendido em qualquer farmácia normal e controla-se os índices hormonais periodicamente.
Fazendo isso você poderá viver uma vida normal, trabalhar, fazer atividade física, se relacionar com as pessoas, engravidar sem dificuldades.
9- Existe alguma relação de alimentação com Hashimoto?
Muitos estudos tentam relacionar a deficiência de substâncias do corpo como vitaminas, zinco, selênio, aumento do consumo de outras como carne vermelha, glúten e assim por diante. Porém ainda não é totalmente definido se existe prejuízo ou benefício no consumo de alguma substância para prevenir ou até mesmo retardar o processo da doença.
O que pode-se concluir com estes artigos científicos sobre o assunto é que existe sim uma relação alimentar com o aparecimento da tireoidite, porém não é apenas isso, existem fatores genéticos e outros ambientais envolvidos.
Ter uma vida saudável, comer em moderada quantidade carne vermelha, manter os níveis de vitaminas normais no sangue, comer mais legumes, verduras, não ter sobrepeso ou obesidade e fazer atividade física são medidas que funcionam para a prevenção de diversas doenças, incluindo problemas na tireoide.

10- Relação entre Hashimoto e câncer de tireoide
Em alguns casos existe a chance de formação de nódulo tireoide que nascem ou transformam -se em câncer no decorrer dos anos de doença de Hashimoto.
É importante realizar ultrassonografia e palpação do pescoço de forma sistemática e periódica para que um nódulo que nasce com milímetros não se transforme em um problema sem ser percebido.
(Fonte: Silva de Morais N, Stuart J, Guan H, Wang Z, Cibas ES, Frates MC, Benson CB, Cho NL, Nehs MA, Alexander CA, Marqusee E, Kim MI, Lorch JH, Barletta JA, Angell TE, Alexander EK. The Impact of Hashimoto Thyroiditis on Thyroid Nodule Cytology and Risk of Thyroid Cancer. J Endocr Soc. 2019 Mar 5;3(4):791-800. doi: 10.1210/js.2018-00427. PMID: 30963137; PMCID: PMC6446886).




